sábado, 15 de junho de 2013

Festa do Japão '13



A 3ª edição da Festa do Japão é já no próximo Sábado, 15 de Junho, no Jardim do Japão em Belém (junto ao Museu de Arte Popular e Padrão dos Descobrimentos), Lisboa.

A iniciativa, inserida na programação das Festas da Cidade de Lisboa, tem como objectivo celebrar a amizade entre os dois países, passados 470 anos da chegada dos Portugueses ao Japão, Ilha de Tanegashima, em 1543, e dar a conhecer a cultura japonesa em Portugal.

A Festa do Japão é organizada pela Embaixada do Japão em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa, EGEAC e Associação de Amizade Portugal-Japão.

A entrada é livre.

Os visitantes podem usufruir de várias expressões da cultura japonesa, quer tradicional quer pop, através de demonstrações de Ikebana, Shodo (caligrafia), artes marciais, poesia Haiku, Origami, Furoshiki (técnica de embrulho), brinquedos japoneses, como vestir Yukata (o kimono de Verão) e Cosplay (expressão da cultura pop).

Haverá também concursos, exposições de Bonsai, tendas de gastronomia japonesa (para venda de sushi, carê udon, takoyaki, dorayaki - doce de soja, sakê, cerveja japonesa etc.), e representação de empresas japonesas, entre outras expressões culturais.

Esta 3.ª edição conta ainda com a participação de dois grupos musicais japoneses, um de tambores japoneses e dança folclórica e outro no âmbito da World Music.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Guitarra Portuguesa por mãos japonesas - A canção de Coimbra | 日本人が奏でるコインブラの曲 日本語

     
     A sensibilidade musical ultrapassa fronteiras: quer sejam fronteiras de países (e geografias) quer sejam as da língua ou mesmo do tempo. Visto assim talvez não seja nada de extraordinário que os gostos por determinado género musical sejam muito intensos numa comunidade que não é aquela em que essa música se originou. Conhecemos todos muitos exemplos desses. No entanto, se estivermos a falar não de um género mas sim de um tipo específico de música de um lugar, num instrumento pouco comum, e se ainda para mais estivermos a falar não só de um gosto acentuado por parte de quem ouve mas também da motivação e trabalho árduo para dominar a técnica de tocar essa música com perfeccionismo...bem, então nesse caso estamos a falar de algo mesmo extraordinário. E para vos convencer disso vou  mostrar aqui o melhor guitarrista de guitarra portuguesa que não é português e que, nessa categoria, é o melhor do mundo!

     O nome artístico é "Marionette", mas o seu nome mesmo é Yuasa Takashi, e eu tive a sorte e felicidade de o conhecer pessoalmente no ano passado, quando ele foi fazer um pequeno concerto a Tanegashima. Na pequena entrevista que lhe fiz pude ver como estava contente de ter a oportunidade de falar com uma pessoa portuguesa. O Sr. Takashi é humilde quanto ao seu talento mas não consegue deixar de demonstrar que foi um caso de enamoramento esta sua relação com a guitarra portuguesa. Persegue o som único deste instrumento, que ele sente mesmo sem saber da expressão "choro da guitarra". Foi por puro amor à musica que estudou cds, ouviu concertos, e dominou a técnica ao longo de alguns anos. Dá concertos por todo o Japão e só no Verão do ano passado foi a dois locais onde eu também estava a investigar sobre o património de influência portuguesa: Nishinoomote (em Tanegashima, como se disse acima) e Nagasaki, onde actuou a convite de elementos da Associação Luso-Japonesa (totalmente composta por japoneses que adoram Portugal!). 


     No vídeo que se anexa podem ver imagens de Macau. "Marionette" ainda não teve a hipótese de vir actuar em Portugal mas foi a Macau várias vezes. As filmagens mostram os edifícios mais emblemáticos do Centro Histórico de Macau que foi classificado Património da Humanidade em 2005.

     Já agora os contactos do "Sr. Marionette", para quem queira dar-lhe os parabéns ou encomendar cds (escrevam em inglês ou japonês, ele não sabe português; e notem que têm de pedir para o cd ser gravado num formato que seja lido pelos pc's ou leitores europeus, que é diferente do formato de gravação para os EUA e Japão): marionette@music.email.ne.jp

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Tradução / 翻訳 :
大阪大学学生 山本真悠子
Mayuko Yamamoto (Estudante da Universidade de Osaka)

Revisão / 監修 :
コインブラ大学日本語講師 新里文野
Ayano Shinzato (Docente da Universidade de Coimbra)


日本人が奏でるコインブラの曲

音楽の感性は、地理的国境、言語、そして時代さえも超える。人々がかなり昔の音楽や、自国のとはかなり異なる文化の音楽を好むことはごく普通のことである。これは珍しいことでもなんでもない。

しかしこれらの音楽はなんらかの理由で世界的に知られることになった有名な音楽のケースである。小さい国の楽器やメロディーは世界的に有名になることは稀である。おそらく主な理由はこうだ。小さい国の音楽や古代文化の音楽には定義するのが難しい感覚があり、そのため外国人がその音楽で感動する可能性は低い。ロック、ジャズ、そしてレゲェは小さなコミュニティーに発祥し、世界中に知れ渡った音楽様式である。そして今やこれらのジャンルを奏で、歌うプロも世界中にいるファドも同様である。ポルトガルの文化に生まれた民族歌謡で、20世紀に徐々に知られるようになった。ポルトガルに来た旅行者はファドを聞き、とても異質でありながら、また言葉も理解できないにも関わらずその音楽が「感じられる」ことに驚いた。国境、言語、時代を越えて感情を伝えるファドはまるで魔法のようだ。

ファドに魅了された時、魔法は歌い手や楽器への関心にも降りかかる。ポルトガルギターはとても美しい楽器であり、コインブラのギターは世界唯一のものなのだ!

時々、ファドに惹かれ、その想いからポルトガル語を学ぶ外国人が実際にいる。ファドはポルトガル語、またポルトガル語文化への入り口の扉である。また、ファドに愛着を感じ、後に音楽家や歌手になるポルトガルの若者もいる。これらの若者は雑誌やテレビのインタビューで「ポルトガル文化の情緒を発見した」、また「音楽に感性を磨かれ育った。」と言う。

近年、ファドはユネスコによって人類無形文化遺産に登録された。数年前から既にリスボンには「ファド博物館」が存在しているが、この登録以来、ファドは全ポルトガル人に、より尊敬の念と愛情をもってみられるようになった。
ファドを奏でる日本人音楽家との出会いはそれほど難しいことではなかった。彼らはポルトガルのギターの弾き方を、ファドというジャンルの中で並はずれた技術と共に学んだ。彼らは本当に完璧だと言えるだろう。なぜなら、聞いているだけでは彼らがポルトガル人ではないということに気が付かないからだ。音楽の「魂」は、ポルトガルのファドという最高の音楽の中にあるのと同様に、彼らの中にもあるのだ。ファドを奏でる日本人プロの一つが「マリオネット」(Marionette)であり、私は2012年の夏に幸運にも種子島で知り合うことができた。芸名は「マリオネット」だが、彼の本名は湯淺隆(Yuasa Takashi)だ。

彼に行った短いインタビューをご覧になれば、私がポルトガル人と話す機会を得、とても嬉しかった様子を見てもらうことができると思う。隆さんは自分の才能に関しては謙虚であるが、ポルトガルギターへの愛を隠さずにはいられない。彼は、ポルトガル語で「ギターの涙」と言われるこの楽器の唯一の音を追い求める。CDを研究し、コンサートを聞き、何年もかかって技術を身に付けた。彼は日本中でコンサートを行っており、去年の夏に偶然、私がポルトガル遺産の影響についてリサーチを行っていた二か所の土地でコンサートを開催した。西之表(上で述べた種子島にある街)と長崎だ。そこでは日本ポルトガル協会(日本人だけで結束されたポルトガル愛好家たちの会!)の招待に隆さんが応じた。

「マリオネット」はマカオを何度も訪れ、この添付ビデオはその際に編集された。映像は、2005年にユネスコによって世界文化遺産に登録された「マカオ歴史市街地区」の象徴的な建物を映している。

ポルトガルでは来る66日にカスカイスで、同月9日にはコインブラでのコンサートが予定されている

「マリオネット」に祝福の言葉を贈りたい、またはCDを注文したい方はこちらへご連絡ください。(英語か日本語で書いてください。)marionette@music.email.ne.jp

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6月9日(日) 午後9時半 | 9 de Junho 21h:30m
  Marionette - Concerto em Portugal 2 ~Coimbra~
  ~ 470 Anos de Amizade Japão-Portugal ~
  『NAMBAN GUITARRA/南蛮ぎたるら』 
  「マリオネット・コンサート」in ファド・アオ・セントロ

  Fado ao Centro/ファド・アオ・セントロ
Rua do Quebra Costas 7 3000 Coimbra, Portugal/+351-239-837060/+351-91-3236725
http://www.fadoaocentro.com/pt
日本・ポルトガル交流470周年記念コンサート




quinta-feira, 30 de maio de 2013

Apresentação do projecto 'Namban 470' no Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra (IIIUC)

   No passado dia 13 de Maio, por ocasião do dia dos doutorandos e enquadrado na celebração dos 12 anos do Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra (IIIUC)*, Inês Carvalho Matos, a doutoranda do programa "Patrimónios de Influência Portuguesa" que faz parte da organização do Namban 南蛮 1543-2013: Portugal e Japão (Namban 470) apresentou este projecto junto da Direcção e dos seus colegas aí presentes, mostrando como o mesmo pode ser mais um campo de acção do referido Instituto e da internacionalização da Universidade. 

   Com efeito, deste Abril deste ano que o IIIUC recebeu o Namban 470 e, em conjunto com a Reitoria, colaboram com a equipa da organização de modo a tornar possível uma celebração digna dos 470 anos Portugal-Japão na cidade e Universidade de Coimbra.  Para além da Direcção, membros do Secretariado e diversos doutorandos que compareceram a esta ocasião, estava também presente a representante dos doutorandos no Senado da Universidade - Sofia Morais. Nesse dia não foi possível estar presente o Ex.mo Senhor Vice Reitor Doutor Joaquim Ramos de Carvalho, que no entanto já se tinha reunido com a organização do Namban 470 a 19 de Abril. 


Dra. Cláudia Cavadas, directora do IIIUC, na apresentação do projecto 'Namban 470' junto de direcção e doutorandos  do IIIUC
Dra. Cláudia Cavadas e Inês Matos na apresentação do 'Namban 470' no IIIUC 






quarta-feira, 22 de maio de 2013

Apresentação do projecto Namban 南蛮 1543-2013: Portugal e Japão

Terá lugar no dia 1 de Junho, na Sala Arte à Parte em Coimbra, a apresentação do projecto Namban 南蛮 1543-2013: Portugal e Japão (Namban 470). A apresentação terá início às 14h.
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Estendemos desde já o convite a todos os nossos seguidores e apoiantes. Contamos com o vosso apoio.



Localização: 


domingo, 12 de maio de 2013

João Rodrigues e o 'chanoyu' (Cerimónia do Chá)

     O conhecimento sobre o Japão chegou à Europa através dos textos escritos pelos ocidentais que lá se encontravam. Apesar de algumas referências míticas e sem experiência directa (como Marco Polo) foi apenas depois de descrições da cultura e sociedade japonesa feitas por quem lá estava que o Ocidente se apercebeu (lentamente) do valor desta outra civilização.

     A língua na qual os primeiros textos sobre o Japão foram escritos era a língua franca do comércio e da política mundial durante os séculos XVI e XVII, uma versão antiga que compila o castelhano e o português (que aliás, não eram línguas completamente distintas na época). Quanto aos autores, aqueles que tinham mais capacidade para descrever e relatar por escrito eram os Jesuítas.

     Estes religiosos são por vezes erradamente considerados meros "padres", mas não devemos esquecer que os Jesuítas recebiam uma formação equivalente à da moderna universidade, em áreas como a geografia, astronomia, matemática, linguística, e que davam grande valor à compreensão das culturas com as quais contactavam. Com efeito, algumas das características mais importantes do calendário ritual, diversos traços do comportamento social e mesmo descrições de história política e económica, foram feitas pelos Jesuítas que se encontravam no Japão.

Chanoyu -  の湯

     João Rodrigues, um português que chegou ao Japão em 1577, foi o primeiro a escrever sobre a "cerimónia do chá" - chanoyu  の湯. Ele próprio tinha chegado ao Japão com apenas 15 anos (mas tinha completado a formação jesuíta) e compreendia profundamente tanto a língua como a mentalidade japonsesas. Conceitos provenientes do Zen, que dizem respeito à contemplação, ao perfeccionismo e à minimalização estética, podem ler-se no seu tratado sobre o chá. Nesse documento escreve também sobre as folhas de chá, os utensílios e as codificações sociais associadas à cerimónia.

     Na verdade, o chá não cativou o Ocidente imediatamente. Esta experiência de João Rodrigues não era compreendida pelos Ocidentais, que consideravam muito estranho tanto a bebida em si como todo o ritual. Assim, o próprio texto de Rodrigues ficou relegado para segundo plano e largamente desconhecido.

  Cerimónia do Chá de Mizuno Toshitaka

Artigo em inglês da auturia de Steven D. Owyoung:
http://www.tsiosophy.com/2011/06/tea-and-jesuits-iii/


«Tem pois por profissão esta arte do Chá a cortezia, bom ensino, modestia, e moderação nas açoens exteriores, socego, e quietação do corpo, e alma, com humildade exterior, sem altiveza, e arrogancia, fugindo do fausto, pompa e aparato de fora, e magnificencia do trato forense, antes singeleza sem dobres como hé conveniente ao solitario do hermo, vestido honesto, e dessente, com certa ordem, limpeza, e chaneza em todas as couzas de seu serviço, e da conveniente a sua profissão, porque todos poem os olhos nos que professão esta arte, tendo fama no povo de homens de bons costumes, estimados, e reverenciados por taes. Donde para exercitarem estas couzas tocantes ao hermo, e apartamento, e contemplação o que há na caza e serviço della para os mover a saudades, e apartamento do trafego forense em algum modo, e a moderação das acçoens exteriores se convida a beber chá na dita caza, servindo o convite, e as demais cerimonias que alli se uzão tosca, e grosseiramente de exercício dessas couzas, e aparelho para beber o chá, que hé a recreação do hermo em lugar da do vinho de que uzão nos convites solemnes de trato politico.»

João Rodrigues, S.J.
História da Igreja do Japão, pp. 473-474


domingo, 31 de março de 2013

Semana Santa em Kochinotsu

   Por ocasião das celebrações pascais, partilhamos um excerto de uma carta do padre jesuíta Luís Fróis, escrita em Kochinotsu (Cochinotsu) [Minamishimabara, província de Nagasaki] no ano de 1582, onde o jesuíta descreve os Ofícios de Trevas e Paixão de Quinta e Sexta-feira Santas. O relato testemunha a peculiaridade das festividades pascais que resulta do encontro cultural entre as tradições festivas portuguesas e japonesas. Esta carta integra a obra História de Japam, do mesmo autor.

Minamishimabara, província de Nagasaki (ilha de Kyushu)

    «A quinta feira apareceo o sepulchro em que se encerrou o Senhor, cousa de que todos os Japões se maravilharão. Mandou elrei pôr ali doze homês armados, e as armas eram delrei novas, e muito lustrosas. O ofício da sexta-feira moveo a tanta devoção que não sei se ficou alguê que não derramasse lágrimas. Sairão os meninos Japões com suas alvas, e coroas de espinhos nas cabeças, e levarão os martírios nas mãos dizendo cada hum delles seu dito na mesma língoa em que se declarava aquelle misterio, e os mesmos meninos movidos com devoção choravão de maneira que não podiam ir por diante com os seus ditos, e por a gente ser muita em grande cantidade ficou pera depois de jantar, beijarem o crucifixo, quasi ate a tarde.

   Na fonte do sabado santo não tinhamos nada porque a mandou elrei a maneira de Japão: havia na fonte hûa laranjeira que tinha as folhas de seda, e muitas laranjas de ouro, e hum pinheiro que tinha as espinhas de seda verde crua tam tezas que parecia picarião se lhe posessem a mão, e em cada ramo tinha hûa pinha brava como são os de cá muito natural; tinha mais algûas canas, cujo tronco era de pao e as folhas de seda tão naturaes que escaçamente se podia adivinhar, que erão côtrafeitas. No meo da fonte estava hûa tartaruga tão fermosa, e natural que parecia ao menos depois que a agoa lhe foi chegando aos pés, que se queria lançar nella.

   Em se chegando a noite concertarão os christãos muita diversidade de lanternas de papel de diversas figuras pera a procissão do dia seguinte, tanto para ver que me affirmo não ter visto nestas terras partes cousa em que mais enxergasse a sotileza dos Japões em cortar cô faca que naquelas peças. O numero das alanternas, que quasi parecião todas diversificarem nas figuras foram estimadas em numero de tres mil, e as principais forão três, que trouxe Pantalião filho delrei, hûa das quais era da figura de hûa igreja, com sua capella, e altar, seu frontal de brocado da China e tâtos lavores, e tam sotis nas colunas, que a todos punha admiração, à porta dela estava hum disciplinante todo ensangoêntado, ouve otras muitas e diversas historias do Japão, ao tempo de sair a procissão, estando a rua toda cuberta de arcos, e de muitas flores com grande serenidade, avia ahi grandes engenhos e invenções de fogo, de tantos, e tam diversos artificios pello ar, que juntamente levavão os olhos de todos após si, e não havia quem se não torcesse pera os ver.

   Os meninos que na sexta feira hião com coroas despinhos, as levavão agora douradas, e prataeadas mui lustrosas, ouve duas danças, hûa que fez Pantalião terceiro filho delrei, e outra hum genro seu, vestido ricamente de seu modo. De hûs tres baluartes saião muitas rodas, arvores, e outros artifícios de fogo, que davam grande lustro à procissão, era tanta a gente, que com de noite se lançar fora e fecharem todas as portas, quando veo a meia noite, e antes della estava a igreja chea sem poder caber mais huma so pessoa, e a mais desta gente tinha entrada por mar em embarcações.»


Luís  Fróis , S.J.*
História de Japam, pág. 309


Estátua de Luís Fróis em Sakai
(foto: Tokyo Dayori)
Placa memorial de Luís Fróis no Parque dos Mártires, em Nagasaki
(foto: Japan Visitor Blog)

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   Relatos de festividades de cariz religioso, nomeadamente na Páscoa e no Natal, são frequentes nas relações dos Jesuítas que integraram a missionação em terras nipónicas, como é o caso do Pe. Luís Fróis. A importância das festividades era altamente valorizada pelos padres jesuítas como uma via para fazer chegar as tradições cristãs (e naturalmente, a evangelização) ao povo japonês. Estes relatos denotam, por outro lado, o respeito dos missionários pelas tradições festivas japonesas que, não obstante, provocavam nos europeus uma sensação de admiração e assombro. A simbiose de elementos festivos portugueses/europeus e japoneses reflecte a importância do "convívio intercultural" que, de uma forma geral, pautou as relações luso-nipónicas e que desde cedo foi valorizado pelos Jesuítas no contexto do difícil processo de evangelização do Japão.

   Relativamente a este ponto, Armando Martins Janeira escreve: «O sentimento da distância e de viver num meio tão estranho levava os jesuítas a entranhar-se neste meio e a identificar-se gradualmente com os costumes japoneses. Destes adoptavam e introduziam nas festas religiosas tudo o que não colidisse com o espírito cristão. Este sentimento ecuménico facilitou a penetração rápida e profunda dos sentimentos cristãos entre o povo japonês. Os Japoneses podiam, nas festas católicas, ter divertimentos e prazeres estéticos semelhantes àqueles que experimentavam nas festas xintoístas tradicionais, satisfazendo o seu gosto da cor, da exibição espectacular da representação teatral. E não faltavam sequer, a contrastar com o lado alegre e solar da alma japonesa, expressa nas práticas xintoístas, as cerimónias tristes e pesadas da Paixão de Cristo, em que até as crianças choravam sob a atmosfera lúgubre que podiam evocar-lhes as celebrações severas nos escuros templos budistas, com cantos pesados em que se sente a sombra da morte.»**


*  Societas Jesu  (Companhia de Jesus)
** JANEIRA, Armando Martins, O Impacto Português sobre a Civilização Japonesa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1970 [2ª ed. (póstuma, mas incluí a revisão do autor), prefácio de Pedro Canavarrom Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988.], pág. 86. 
(Traduzido para japonês: Namban Bunka Noraiki, tradução de Takiko Matsuo, The Simul Press, Inc., Japão, 1971)
[link Goodreads]


quinta-feira, 21 de março de 2013

Haiku - Poesia tradicional japonesa


     O haiku (俳句, haiku ou haikai) deriva duma forma anterior de poesia, em voga no Japão entre os séculos IX e XII, designada por tanka; tinha 5 versos, de 5 e 7 sílabas, que tratavam temas religiosos ou ligados à corte.

No século XV, os muitos concursos de poesia tanka deram origem a um jogo de escrita de longos poemas: a primeira estrofe, de 3 versos (com 5, 7 e 5 sílabas), era sugerida por um poeta e as restantes iam surgindo e associando-se, num jogo competitivo entre vários poetas. Este tipo de poesia era a renga, de temática clássica, e os primeiros três versos (os mais importantes, pois serviam de mote) designavam-se por hokku. No século XVI,  tornou-se mais popular o haikai-renga, de temática humorística.

Rapidamente a estrofe inicial de 3 versos acabou por se tornar uma forma independente de poesia. Mas só no século XIX, o mestre Masaoka Shiki lhe atribuiu um nome: haiku  (pela junção das palavras haikai e hokku). 

Os Quatro Mestres do Haiku



                                                        Bashō  (1644-94) | Buson (1716-83)
                                                        Issa (1763-1828) | Shiki (1867-1902)

A evolução:

Matsuo Bashō 松尾 芭蕉 (1644–1694), considerado o primeiro e maior poeta japonês de haiku, nasceu samurai e adoptou a simplicidade tanto na vida como na criação poética.

Enriqueceu o haiku, superando a artificialidade de poetas anteriores e tornando-o artistica e socialmente aceite. A par de poemas de carácter lúdico, começou a valorizar o papel do pensamento no haiku, imprimindo-lhe o espírito do budismo zen.

Versátil, os seus poemas sugeriam os mais variados estados de espírito: humor, depressão, euforia, confusão,... permitindo uma consciência da grandiosidade da natureza (física e humana).



Este caminho

Ninguém já o percorre,

Salvo o crepúsculo.



De que árvore florida

Chega? Não sei.

Mas é seu perfume.


 Outros poetas do género se lhe seguiram: Yosa Buson 与謝 蕪村 (séc. XVIII), Kobayashi Issa 小林一茶 (séc. XVIII), Masaoka Shiki 正岡 子規 (séc. XIX).

De salientar Shiki, crítico de Bashō por considerar que a sua poesia carecia de pureza e tinha demasiados elementos explicativos: o haiku deveria ser a partilha de um momento e não a sua explicação, privilegiando a descrição visual e o estilo conciso.

Nem Shiki nem os poetas contemporâneos afirmaram uma ligação ao zen, como Bashō, embora seja inegável que a essência desta filosofia continue presente em muitas composições haiku.
  
Matsuo Bashō
As características:


“O haiku é mais do que uma forma de poesia; é uma forma de ver o mundo. Cada haiku capta um momento de experiência; um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado,
a natureza humana, a vida”. 

 (A. C. Missias, biólogo e poeta americano)

        Basicamente, o haiku define-se como uma forma poética que, quanto à forma, tem três versos curtos e, quanto ao conteúdo, expressa uma percepção da natureza.

         Os três versos (sem rima) apresentam, respectivamente, 5, 7 e 5 sílabas métricas japonesas. A métrica japonesa assenta essencialmente no elemento duração: por exemplo, a palavra Bashō, metricamente tem três sílabas ou unidades de som, porque o /o/ final é longo.

     São dois os elementos de conteúdo, em não mais do que duas frases: uma percepção sensorial (particular e imediata) e uma percepção sugestiva  (de maior amplitude circunstancial ou semântica). A separação entre os dois elementos é feita por uma palavra ou sinal gráfico (kireji).

          A percepção sensorial parte de um vocábulo associado a um elemento da natureza e, frequentemente, às estações do ano (kigo) O kigo representa o aqui e agora que originou uma dada emoção/sugestão.
Não apresenta objectividade, mas a subjectividade expressa provém sempre de uma objectividade captada pelos sentidos. Uma sensação concreta – visual, auditiva, táctil – permite associações, sentimentos, memórias, o reconhecimento de um conjunto mais amplo em que essa sensação se encaixa.

'Um pequeno cuco voa para uma hortênsia' - Yosa Buson

O haiku capta o instantâneo, regista, enquadra, presentifica, evoca, emociona... a ligação semântica entre as palavras expostas será sempre feita pelo leitor.

      É, pois, uma forma de poesia breve, depurada, bela, simples e fluente. É uma reacção estética minimalista à crescente consciência humana do caos.
       Exige uma atenção aos mais pequenos eventos da natureza objectiva e imediata; uma permanente atitude de espanto perante o fenómeno da natureza. 

         Pressupõe uma relação entre o particular e o geral, entre o mais individualmente percebido e o ritmo cósmico da natureza, entre a efemeridade da sensação e o eco que esta pode despertar na sensibilidade e na memória, promovendo uma união entre o sujeito e o objecto. De referir que, no Oriente, o conceito de união entre o homem e a natureza é diferente do ocidental: o homem também é a natureza, por isso, o conceito de união remete para aquele momento específico em que o homem reconhece essa natureza a que ele também pertence.